O Santuário Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão ergue-se sobre uma esplanada encostado ao Morro Urucu.
A base da torre triangular fica exatamente a 501 metros e 12 centímetros acima do nível do mar. A sua história é simples e começou no ano de 1988.
Eis aqui o que eu (D. Adélio Tomasin) escrevi por ocasião da inauguração, que aconteceu no dia 11 de fevereiro de 1995.
Nunca pensei em construir, sequer, uma igreja grande, muito menos um santuário. Mesmo após o contato com a realidade, o santuário não estava na lista dos meus projetos pastorais.
No entanto, durante a festa de Nossa Senhora, eu estava celebrando na Catedral; havia muita gente e, como sempre, havia feito a pregação apropriada à circunstância. Depois da comunhão, purifiquei a âmbula e o cálice e sentei-me na cadeira em frente ao altar (ainda não tinha sido feita a reforma do presbitério).
De repente, não sei explicar como nem porque, veio-me a mente a seguinte frase: “Por que tu não pensaste em construir uma casa para minha Mãe?” E vi o santuário entre os monólitos, um lugar que dominava o sertão. Não sabia como reagir diante deste pensamento, e por um motivo simples, muito simples.
Era uma inspiração ou uma brincadeira da minha fantasia? Conhecendo-me, preferia acreditar na segunda hipótese. No entanto, chegando o momento de dizer: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”, saíram-me estas outras palavras: “Por favor, sentem-se um instante.” Os presentes enquanto sentavam-se, olhavam surpresos uns para os outros. Pensavam com certeza: “Seria mais um sermão? Mais avisos?”.
Contei em voz alta e clara, embora com muita timidez, a pequena história que havia vivido, sentado na minha cadeira e com Jesus no coração. Agora, era eu que esperava a reação do povo. Fiquei surpreso. Todos se levantaram e reagiram àquela história com uma estrondosa e demorada salva de palmas.
Assim brotou a idéia do santuário. Era, se bem me recordo, festa de Nossa Senhora do Carmo.
Infelizmente eu não tenho um livro de memórias, nem um diário. Por minha natureza penso mais em fazer do que recordar. Reconheço que isso por um lado é bom e por outro não é.
Pois bem, não me recordo se foi no mesmo dia ou no dia seguinte, fui até a frente da Catedral e de lá pela primeira vez notei a beleza selvagem do Monte Urucu. Situava-se entre a Serra Branca e a Serra Preta. Era o mais alto morro e, além disso, parecia ter na frente uma espécie de platô, onde provavelmente poderia ser possível construir o santuário.
Senti um forte impulso e uma grande vontade de conhecê-lo mais de perto.
No dia seguinte peguei o carro e rumei na direção do morro (ainda não conhecia o nome). Cheguei indo pelo asfalto até a estrada de ferro, vi então uma estradinha de chão e segui adiante. Depois de percorrer mais ou menos duas léguas (parecia tão perto visto da Catedral...), cheguei à fazenda Bom Repouso, a qual eu supunha que pertencesse o morro.
O fazendeiro disse-me que ele era o dono da parte mais alta e das ruas; o platô pertencia a um certo “Chico”, que morava no Campo Novo. Despedi-me do fazendeiro e peguei o caminho de volta à cidade.
De repente vi um senhor sentado numa charrete puxada por um cavalinho quase sem ânimo para correr. Buzinei. O senhor puxou as rédeas e o cavalinho parou. Encostei o carro à charrete e perguntei: “Por acaso o senhor conhece um certo Chico do Campo Novo?” Olhou-me e respondeu-me calmamente: “Sou eu... Porquê?” Então eu disse-lhe: “Prazer, seu Chico, eu sou o Bispo e gostaria de saber se por acaso o senhor estaria disposto a vender-me aquela parte do morro lá em cima?”
O Chico sorriu e respondeu-me: “Faz mais de um ano que quero vender essa ladeira com todo o sítio e não encontro compradores. Ninguém quer comprar pedras.” Uns dias depois fechamos o negócio. Dentro de mim crescia a surpresa: coincidências demais.
Depois de uns dias eu quis ver o que realmente havia lá em cima. Logo cedo, cheguei ao pé da Serra do Urucu e me meti entre a capoeira e o mato.
Não adianta descrever a “escalada”, voltei para casa todo arranhado e sujo, mas muito feliz. Lá em cima não havia na realidade uma superfície larga e plana, mas poderia ser aplainada.
Falei com o Pe. Orlando, administrador da diocese, da experiência e do local. Na manhã seguinte, tomei nos braços uma imagem de Nossa Senhora que tinha na capela de minha casa e subimos ao platô, bem ao início da parte mais alta, e paramos onde havia um amontoado de enormes blocos de granito.
Lá entre dois blocos colocamos a estátua de Nossa Senhora e rezamos, romeiros improvisados, as primeiras três “Ave Maria”. Nas mãos dela e de São José, colocamos os sonhos, as esperanças, as dificuldades e os problemas.
Quando refleti sobre o fato, procurei compreender porque Deus queria uma casa para Nossa Senhora.
Podia ser isto:
a) Honrar a Nossa Senhora Mãe de Deus;
b) Criar um foco de irradiação de devoção Mariana;
c) Ajudar o nosso povo e a Igreja toda de Quixadá a compreender o projeto que Deus quis realizar
em Maria e por Maria;
d) Recordar sempre que Maria faz parte não só da Igreja, comunidade de homens, mas da Igreja
mistério, porque estamos ainda longe da compreensão
de Maria neste mistério da Salvação do homem e do mundo;
e) Mostrar Maria como Mãe de Deus, Mãe da Igreja, nossa mãe.
Na reflexão lembrava-me que Ela foi também a primeira missionária (em ordem de importância) da América Latina, e havia pouco tempo que o Papa tinha indicado Maria como a Estrela da Nova Evangelização. Por isso, renova-me a esperança que o Santuário através de Maria se transforme em ponto de irradiação de uma Igreja Missionária.
Enfim, esperava que acontecesse o que de fato aconteceu em todos os santuários marianos: muitos homens e mulheres que vivem longe de Deus, encontram no Santuário e no abraço da Mãe, o caminho da conversão que leva a Deus e transforma suas vidas.
Não se constrói um Santuário em cima de um morro dessa altura, sem uma estrada para chegar até lá. Não havia sequer um caminho para um jegue chegar lá em cima. Olhei de um lado e depois do outro quando tinha subido a primeira vez, tinha observado tudo, embora se visse pouco por causa do mato. O primeiro passo era fazer uma estrada.
Dirigi-me ao gabinete do Governador para ver se podia mandar-me uma equipe de topógrafos capaz de traçar uma estrada que do caminho de Juatama chegasse lá. Vieram. Juntos exploramos e em breve os topógrafos fizeram uma trilha e colocaram os piquetes cabeça vermelha e numerados.
Eu nunca tinha construído uma estrada na vida e não conhecia as dificuldades que isto comportaria, sobretudo uma estrada na ladeira de um morro. Era o final do ano de 1988 e o primeiro que acreditou e me ajudou foi o Exmo. Sr. Governador Tasso Jereissati, que me mandou um trator D8, para 100 horas de trabalhos, prolongadas depois para 150 horas. Foi o pontapé inicial. O trator conseguiu abrir uma trilha até quase o topo, o que foi muito importante para o restante das obras.
Desde então, com a ajuda de Deus e a dedicação dos nossos operários, trabalhamos deparando-nos com todo tipo de dificuldades até concluir a base da estrada. Em janeiro de 1993, iniciamos o calçamento da estrada e em janeiro de 1994 foi concluído. Uma grande vitória, se considerarmos os recursos econômicos, humanos e tecnológicos que possuíamos.
Os operários já tinham cavado parte dos alicerces, mas foi no dia 12 de outubro de 1993, que foi abençoada e colocada a primeira pedra do Santuário. Tudo foi simples, tudo foi emocionante. As nuvens, o vôo das aves, o deslumbrante pôr do sol, os monólitos ao redor formavam um cenário inesquecível.
Mas quem participou, sente ainda algo no coração, pois os sentimentos mais profundos não eram provocados por essas coisas bonitas, mas pela fé e o amor a Mãe de Deus. Havia um detalhe que também nos comovia. Tinha iniciado as escavações dos alicerces sem ter praticamente dinheiro. Quando uma jovem da minha terra, ao saber que queria construir um Santuário a Nossa Senhora, mandou-me parte da herança recebida de seu pai e esse dinheiro deu para fazer todos os alicerces.
Depois da bênção da primeira pedra, depois da oferta que nos permitiu fazer todos os alicerces, começaram a chegar como gotas de água outras ofertas: umas pequeninas e outras grandes. Nunca paramos os trabalhos. Via-se mesmo que Deus queria a casa para a Mãe de Jesus.
Construir num morro sem estrada é impossível, mas também construir sem energia elétrica é, hoje, impossível ou muito difícil.
Depois de promessas, incertezas, desilusões e esperanças, finalmente no dia 11 de fevereiro de 1994, o sr. Prefeito Dr. Hilário Marques, em nome do secretário da SETECO, ligou a chave da energia na esplanada do futuro Santuário. Naquela tarde agradecemos a Deus e aos que tinham sido instrumento da Providência, com a Celebração Eucarística, enriquecida pela devoção e cantos de várias pessoas, entre elas várias religiosas.
Quem constrói um santuário sabe que isso não serve para nada se não há alguém que o torne uma estrutura viva. Quem seria esse alguém? Tinha perguntado a mim mesmo uma centena ou mais de vezes, mas não achava uma resposta. Porém, acreditava cegamente que Deus teria providenciado.
Um dia chegou a senhorita Giovanna Negrioli, que há muito tempo e de maneira incansável trabalha por esta diocese, embora morando na longínqua e pequena Itália. Estava falando com ela sobre muitos assuntos, quando não sei porque o discurso caiu no problema de quem viria tomar conta do Santuário. Ela disse-me: “Porque não pede a Pe. Gianni Sgreva? Ele tem uma comunidade que ora, jejua e acolhe”.
Senti-me impelido a pegar o telefone na mesma hora e discar o número da comunidade em Passo Corese, perto de Roma. (O Pe. Gianni devido as múltiplas responsabilidades e compromissos dificilmente está em casa, e quando ele está, os telefonemas são sempre filtrados por uma eficiente secretária).
Acabei de discar e do outro lado alguém respondeu: “pronto! Quem fala?”. Pedi para falar com o Pe. Gianni, e a voz respondeu: “Sou eu”. Fui diretamente ao assunto. Falei-lhe do Santuário e pedi-lhe uma comunidade para tomar conta desse Santuário. Ele escutou, pediu-me um tempo para pensar e marcou o dia 13 de maio de 1993 para conhecer a diocese e estudar o assunto.
Parecia-me tudo um sonho, porque estas coisas não se resolvem normalmente em semanas, mas em anos. Pe. Gianni, fundador e responsável pela família de consagrados denominada “Comunidade Mariana Oásis da Paz”, chegou a Quixadá acompanhado pela Vigária Madre Fabrícia. Ficaram mais ou menos uma semana e quando saíram deixaram-me quase a certeza de que teriam respondido com um sim ao meu pedido.
De fato, pouco depois veio a confirmação da vinda da comunidade para Quixadá. No dia 8 de janeiro de 1994, sete membros da Comunidade Mariana Oásis da Paz se instalaram provisoriamente nos anexos do Instituto de Teologia e Catequese da Diocese.
Saiba mais sobre a Comunidade Mariana Oásis da Paz acessando o site da Comunidade clicando aqui.